Inovação e Economia – por Prof. António Câmara

Introdução

Inovação é invenção que chega ao mercado. A invenção pode resultar de iniciativas individuais ou institucionais.

A invenção em Portugal, resultante de iniciativas institucionais, nasce, nomeadamente, em centros universitários, laboratórios de Estado, centros tecnológicos, e empresas. Inventores individuais, e os seus parentes modernos, “makers” e “hackers”, são igualmente responsáveis por um número significativo de invenções em Portugal.

Aliás, inventores individuais são responsáveis por aproximadamente metade das invenções patenteadas em Portugal, superando a propriedade intelectual registada no País pelas instituições públicas e privadas (AIP, 2016).

As deficiências do País no registo de propriedade intelectual, são sobretudo significativas no plano internacional. Portugal obteve apenas 170 patentes internacionais em 2015. A Finlândia, que tem metade da população, obteve 4000 no mesmo período. Só há vinte e cinco empresas, em Portugal, com mais de uma patente atribuída por ano de 2011 a 2015.

Este indicador sintetiza dois problemas relevantes na inovação nacional:

– A criação de propriedade intelectual não é um objectivo prioritário no nosso sistema de inovação institucional;

– Sem “portfolios” de patentes que garantam liberdade de operação, torna-se difícil implantar empresas Portuguesas nos mercados mais competitivos.

O primeiro problema está associado a limitações no sistema de invenção. O segundo problema limita a chegada das invenções nacionais aos mercados mais significativos.

Sistema de invenção

Portugal tem hoje um ecossistema de investigação estatal que se tem vindo a aproximar da média Europeia nos índices bibliométricos usuais (e, em alguns casos, superá-la). Mas, como referia Alexander Von Gabain (2012), Chairman do European Institute of Technology (EIT), a investigação, na Europa (e em Portugal) , segue ainda o modelo linear de Francis Bacon. Nesse modelo, assume-se que a investigação fundamental alimenta a investigação aplicada, e esta resulta na criação de valor. Infelizmente, essa não tem sido a realidade, porque para criar valor são necessários empreendedores no seio ou trabalhando em conjunto com as equipas de investigação. Esses empreendedores não abundam no Continente Europeu, e, nomeadamente, no nosso País. Na verdade, não há nenhum incentivo para que um investigador universitário se torne num empreendedor.

Von Gabain argumentou que a diferença para os EUA não reside apenas na existência de um maior número de empreendedores nas instituições americanas. O modelo de investigação é também diverso: o objectivo fundamental é a substituição de tecnologias, recorrendo a investigação que pode ser fundamental ou aplicada.

Von Gabain apelidou esse modelo de Californiano, mas de facto ele foi estimulado por Karl Compton, Presidente do Massachusetts Institute of Technology (MIT), que em 1947 proclamou a criação de novas industrias como objectivo central do Instituto (Ante, 2008). Nos últimos 70 anos, o MIT tornou-se num motor de desenvolvimento económico contribuindo para a criação de empresas que facturam 1.9 triliões de dólares por ano, e empregam 4.6 milhões de pessoas. Nestas sete décadas, investigadores com associação ao MIT obtiveram setenta e cinco Prémios Nobel (AIP, 2016).

A visão de Compton tem vindo a ser crescentemente adoptada pelas principais universidades norte-americanas, europeias e asiáticas. Os planos estratégicos das Universidades em Portugal estão ainda orientados para uma visão predominantemente académica. Celebram-se sobretudo as subidas nos “rankings” internacionais que privilegiam as publicações e citações. As Universidades Portuguesas não constam de “rankings” orientados para a inovação (Reuters, 2016).

O registo das invenções como patentes não é assim uma prioridade nas universidades portuguesas, mas também nas entidades do sistema de inovação nacional que empregam os seus diplomados: laboratórios de Estado, centros tecnológicos, e a generalidade das empresas Portuguesas.

Como referido na introdução, Portugal tem inventores individuais que têm essa preocupação. O País tem também um crescente número de empreendedores na economia do conhecimento, que estão a criar invenções. Aliás, o número de “startups” Portuguesas tem-se vindo a aproximar dos patamares associados com o Norte da Europa.

O projecto Magical Industry Tour (AIP, 2016) pretende estimular a a criação de novas industrias em todas as componentes do sistema de inovação nacional, incluindo as iniciativas institucionais e individuais. O registo de propriedade intelectual, mas também a comunicação e captação de investimentos a nível internacional, são eixos fundamentais desse projecto.

Mas a não orientação para a inovação do sistema institucional de investigação em Portugal tem consequências mais graves em áreas estruturais. O facto de se privilegiarem métricas que resultam do somatório de estatísticas individuais, tem conduzido à não existência de projectos de inovação dirigida seguindo o modelo “Homem na Lua”. Projectos desse tipo, no contexto Português , seriam especialmente relevantes nas áreas do Mar e do Espaço, e também em muitas outras áreas em que o País tem investigadores de classe mundial.

Invenções e o Mercado

O Hype Cycle da Gartner (2016) mostra o grau de maturidade das tecnologias de informação, em relação à sua chegada ao mercado. A análise, no Google Patents, dos pedidos de patentes para cada uma dessas tecnologias demonstra que as empresas líderes os submetem na fase inicial do processo de inovação. O patamar de produtividade só é alcançado, em muitos casos, dez anos mais tarde. Mas a não submissão de patentes no início do processo de inovação pode impedir mais tarde o acesso ao mercado.

A inexistência de projectos estruturais referidos acima, aliada ao défice no registo de patentes internacionais, tem consequências gravosas em sectores estratégicos para Portugal. Dificulta
também a criação de empresas de grande dimensão, algo que, dado o talento existente no País e o acesso a investidores internacionais, pode ser alterado nos próximos anos.

Em muitos casos, os inventores/empreendedores podem desenvolver imediatamente empresas B2C (“Business to Consumer”), mas também B2B (“Business to Business”), em que a preocupação dominante é criar rapidamente uma base significativa de clientes (ou simplesmente utilizadores) em mercados verticais. Essas empresas raramente pretendem desenvolver tecnologias horizontais, como as mapeadas no Gartner Hype Cycle, e patenteá-las. Este tem sido o caminho trilhado pela maioria das “startups” Portuguesas, criadas nos últimos cinco anos.

Sistemas de “crowdfunding”, como o Kickstarter e Indiegogo, permitem testar uma invenção orientada para o consumidor, sem necessidade de criar uma empresa. Esses sistemas avaliam a apetência do mercado, e ajudam a financiar o desenvolvimento das primeiras versões de produtos. Servem também para evitar situações de violação de propriedade intelectual, em fases mais avançadas no processo de desenvolvimento do produto. Elucidam ainda os inventores sobre os sistemas existentes globalmente para “procurement”, logística, “marketing” e vendas. O AliExpress e a Amazon oferecem hoje ecossistemas inexistentes no passado recente.

O sucesso dos inventores nesses sistemas facilita a sua integração nos principais aceleradores mundiais, e a atracção de investimento para as suas empresas. Portugal não tem ainda casos de sucesso expressivo, mas espera-se que o projecto Magical Industry Tour melhore consideravelmente o panorama dado o número e potencial dos inventores existentes.

O desenvolvimento organizacional e o financiamento das novas empresas Portuguesas segue um modelo semelhante ao do Silicon Valley. Os governos Portuguese têm aliás estimulado a criação de organizações de “business angels” e “capitais de risco”, com apoios financeiros. consideráveis. O desenvolvimento deste ecossistema vai contribuir para que o impacto do sistema de inovação na economia nacional seja mais significativo.

Mas o modelo do Silicon Valley foi desenvolvido para o contexto dos EUA, que é significativamente distinto do Português: a ligação do sistema de invenção à economia, e os projectos infra-estruturais de mudança tecnológica são comuns.

O próprio sistema americano mudou nas últimas décadas, ao limitar o acesso a bolsas, como o NASDAQ, a empresas que se tornam quasi-monopólios. A liquidez dessas empresas permite-lhes a adopção de uma política agressiva de aquisições, que beneficia sobretudo os investidores. Este sistema de consolidação “Darwiniano” tem eliminado empresas médias com potencial de crescimento. No caso Europeu, tem contribuído para que o Continente não tenha criado empresas do Fortune 500 no passado recente.

Países como o Canadá e Alemanha têm respondido com políticas que estimulam o desenvolvimento do mercado de capitais para novas empresas tecnológicas. O Toronto Stock Exchange Venture, para esse tipo de empresas, tem hoje uma liquidez inigualável. Este sistema é aliás semelhante ao que vigorava nos EUA, em que empresas como a Microsoft e a Intel foram inicialmente listadas com capitalizações inferiores a 10 milhões de dólares.

Na Europa, refira-se também a iniciativa experimental da Funderbeam, na pequena Estónia, criando um mercado de capitais para “startups”, usando o “blockchain” para maior transparência.

A competitividade Europeia, e Portuguesa dependem da adopção de medidas no estímulo da invenção semelhantes às que tão bons frutos deram nos EUA. Mas devem repensar os seus sistemas de financiamento de empresas, e definitivamente não seguirem o “jogo americano”.

Referências

AIP (2016), Relatório de “Benchmarking” de Ecossistemas Criativos, em http://www.magicalindustry-aip.pt

Ante, Spencer (2008), Criative Capital, Harvard University Press, Cambridge, 2008

Reuters (2016), Ranking of Innovative Universities, em http://www.reuters.com/article/amers-reuters-ranking-innovative-univers-idUSL2N1C406D

Von Gabain, Alexander (2012), The EIT: Addressing Societal Changes Via the Integration of the Knowledge Triangle, em http://slideplayer.com/slide/7723914/

Nota

Artigo “Inovação e Economia”, de António Câmara, a incluir no livro de Miguel Leocádio, ed., Portugal Agora, 2017

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